quinta-feira, 26 de março de 2015

É grátis, mas não é à borla

(por amor de Deus, cobrem-me uma mensalidade

e deixem-me em paz!)

 


Este mês foi um fartar de vilanagem. Começou com a venda de lasanhas, para a escola do Vasco. Diz que é para angariar dinheiro para pagar os ATL da manhã, as sopas da pré-primária e as “classes vertes” dos mais crescidos. Tudo gratuito. O facto de o Vasco não usufruir de nenhuma destas coisas não interessa nada. Também não importa que ninguém coma carne vermelha nesta casa. Haja espírito comunitário. Um por todos e todos por um, certo? Portanto, toca a comprar dez lasanhas. O máximo que o meu congelador comporta. Mas, depois, veio um novo papel para os miúdos venderem mais lasanhas. Parece que as vendas este ano superaram todas as expectativas e a escola mandou mais talões de encomenda. O Vasco estava triste, só tinha conseguido vender dez. Em desespero de causa, lembrei-me de levá-lo para a minha aula, olhos de Bambi em riste. Expliquei aos meus alunos que sabia que aquilo não era lá muito ético, mas que diabo… estamos aqui sozinhos, eles são o mais próximo que tenho de uma família. Fiquei comovida com o entusiasmo com que aquela malta respondeu ao meu pedido de ajuda. O Vasco angariou quase 150 euros em lasanhas e até ganhou uma bola de futebol como prémio de vendas.

Pensava eu que estava despachada até ao próximo mês. Sim, que nesta escola é tudo gratuito, mas sai-nos do corpo (e do bolso) quase todos os meses. Houve a venda de sumos de maçã caseiros, a marcha-de-não-sei-o-quê, o pequeno-almoço da associação de pais, o trabalho no ringue de patinagem… Estou desconfiada que se pusessem a directora de Saint-Joseph como ministra das Finanças em Portugal, endireitava as contas do país num ápice.

Dizia eu que pensava estar despachada até ao próximo mês, mas enganei-me. Faltava o jantar anual da escola… financiado pelos pais, pois claro. Para angariar dinheiro para as visitas de estudo. Que me lembre, o Vasco ainda não fez nenhuma, mas isso não é o mais importante. Paguei uma pequena fortuna por seis almondegas manhosas para nós os quatro (não sei se já disse que não se come carne vermelha nesta casa). No final, ainda passámos duas horas a levantar as mesas. É que, além de pagar para jantar num refeitório com centenas de criancinhas histéricas a correr à nossa volta, também é suposto os pais oferecerem-se para ajudar à festa. Das mil e uma propostas na distribuição de tarefas, escolhi a que me pareceu menos mal. Não me lembrei que íamos ter de carregar pilhas de loiça no meio das criancinhas histéricas… e já cansadas, no final do repasto. O Diogo conseguiu partir apenas dois pratos, menos mal.

Com o mês quase a terminar, pensei que estava livre de mais “angariações de fundos”. Enganei-me, uma vez mais. Desta vez foi a Académie de Musique. O espectáculo de ballet do Vasco, no próximo fim-de-semana, é pago. Oito euros para ver o meu filho dançar. Em Malmedy, para lá do sol-posto. Coisa que ele faz de graça em casa, se pedirmos com jeitinho e prometermos que não nos rimos. Segundo consta é para pagar as mensalidades gratuitas para as meninas que vivem na freguesia da escola que cedeu o espaço para as aulas. Não é o nosso caso, mas temos de ser uns para os outros. E ainda tenho de comprar base do tom de pele do Vasco. E blush, que nunca usei na vida. Parece que fica muito pálido em palco com aquelas luzes todas. Vendo as coisas pelo lado positivo, finalmente há alguém nesta casa que vai usar a minha maquilhagem antes que seque toda, como de costume.

2 comentários:

  1. A situação é-me muito familiar! (O título está muito bem escolhido:)
    Sinto uma simpatia em particular pela verba cobrada várias vezes ao longo do ano lectivo para fotocópias. Que tiro eu, em casa.

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  2. Sim, já tinha ouvido dizer que este "espírito comunitário em prol da gratuidade" é típico do Norte da Europa, Paula. :)

    Eu cá gosto especialmente da assinatura anual de uma revista que me aparece sempre no fundo da mochila toda amachucada!

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