terça-feira, 17 de março de 2015

Ser alguém

(independentemente do estatuto)

 

No outro dia, estive à conversa com a nova empregada da limpeza, no meu trabalho. É uma senhora russa que emigrou há mais de 20 anos. Falámos muito sobre isto de sermos emigrantes. Da nossa terra. Dos novos começos. De deixar a família para trás. De trazer os filhos. Dos sacrifícios. Dos novos amores. Falámos da Bélgica, da nossa vida neste país. Da generosidade típica dos belgas, da entreajuda. Da simplicidade das pessoas.

Volta e meia, ela olhava em volta. Abanava a cabeça e sorria. Antes de se ir embora, fez-me uma festinha na cara. E disse-me, num francês macarrónico: “É bonito, o teu escritório. E grande! Tens um escritório só teu. Com o teu nome na porta e tudo. Tens uma linha telefónica. E falas tão bem francês! Mal se nota que és emigrante. Eu só desconfiei por causa do teu nome. Gosto de ver que a emigração mudou, nos últimos anos. Os homens já não vão para as obras e as mulheres para as limpezas. Tu estudaste, és chefe. Podes ter uma vida melhor. Os teus filhos vão ser alguém. Parabéns!”

Eu corei e agradeci, mas fiquei sem jeito. Estou farta de pensar que devia ter dito alguma coisa. Devia ter respondido que não é o estatuto social dos pais que faz com que os filhos sejam “alguém”. É a educação que lhes damos. Os princípios de vida que lhes transmitimos. E isso não muda consoante o cargo que ocupamos. O estatuto profissional é só mais uma roupagem, no meio de tantas outras que nos envolvem o corpo. Não condiciona em nada aquilo que sou, intrinsecamente. Eu quero que os meus filhos se tornem “alguém”, sim. Alguém que sabe tratar bem as pessoas, que gosta de ter uma palavra amável, que consegue ser humilde. Sem humildade não se aprende nada na vida.

O Diogo contou-me que ontem deixou a professora substituta de solfejo a chorar, no seu último dia de aulas. Agradeceu por tudo o que tinha aprendido. Disse que era um privilégio ter sido aluno dela.

A vizinha que faz as limpezas na escola do Vasco bateu-me à porta, esta manhã. Trazia um saco cheio de roupa que já não servia ao filho. Sabe que o Vasco perde muita roupa, porque anda sempre à volta do “caixote dos perdidos”. E, depois, disse-me baixinho: “Sabes, todos os dias ele vai dar-me um beijinho. E trata-me sempre por “Madame Nathalie”.

4 comentários:

  1. Os meus pais sempre foram pessoas humildes e foi isso mesmo que me ensinaram... a ser humilde e generosa, porque não interessam as nossas origens, se ricas, se pobres... interessa é aquilo que fazemos por nós próprios e pelos demais :)

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    1. Exacto, Naná. Também acho que a generosidade tem um peso muito importante.

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  2. Olha, fiquei sem palavras, a sério. Disseste tanto! Este é capaz de ser o comentário mais palerma que alguma vez deixei, mas vim só dizer que gostei mesmo de ler.

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  3. Obrigada, Paula. Não é nada um comentário palerma... ;)

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