domingo, 22 de março de 2015

O que é a felicidade?

(onde sai contrariada e se volta reconciliada)


 
Ontem saí de casa zangada com o mundo. A “minha” biblioteca vai finalmente mudar de localização e queria acompanhar de perto esse processo. Mas o chefe decidiu que eu devia assistir ao colóquio anual da Down Syndrome Association, juntamente com os profissionais que trabalham na nossa associação. De modo que fiz-me ao caminho às 5h da manhã. Contrariada e ensonada. De mal com a vida.

O colóquio foi, de facto, interessantíssimo. E o chefe tinha razão, a minha presença acabou por ser útil. Só precisei da tradução simultânea para assistir às conferências em neerlandês e consegui ir apontando todas as referências bibliográficas no original. No final, ainda falei com alguns conferencistas para pedir mais informações, a pedido que alguns colegas. Espera-me muito trabalho de tradução, mas ficámos com pistas novas sobre uma série de estudos bastante promissores.

A dada altura, um conferencista falava da boa-disposição tão característica das pessoas com trissomia 21. Uma espécie de felicidade que irradiam à sua volta. E explicou que essa felicidade estava directamente relacionada com o facto de se sentirem satisfeitas consigo mesmas. Fiquei a remoer a ideia. Será que a felicidade depende mesmo da nossa auto-satisfação? Nunca tinha pensado nisso. Sempre achei que a felicidade era uma coisa muito subjectiva, demasiado difícil de classificar. Mas isso explicaria porque há pessoas cuja felicidade depende do sucesso profissional ou financeiro. Explicaria porque há pessoas que só estão felizes em constante movimento, sempre à procura de novos desafios. Ou, pelo contrário, a viver uma vida perfeitamente banal e rotineira, dedicada à família. Se cada pessoa atribuir a sua satisfação pessoal a factores individuais e únicos, é normal que a própria noção de felicidade seja indefinível. Por outro lado, também explica a predominância de “estados de felicidade” sobre um tipo de felicidade consensual, uno e eterno.

No final do colóquio, ouvimos o testemunho de uma pessoa com síndroma de Down. Uma mulher da minha idade, com uma lucidez tocante sobre a sua própria condição. Que nos mostrou fotografias à medida que ia falando sobre a sua vida, com imenso sentido de humor. Explicou-nos que em pequena tinha tido sérios problemas de desenvolvimento, mesmo para uma criança com trissomia 21. Não tinha tido uma infância fácil, mas os pais nunca desistiram. Aos dez anos começou a ser seguida pelo Professor Feuerstein, em Israel, que defendia a ideia de que a inteligência pode ser desenvolvida através da aprendizagem mediada. Um método exigente que mudou a vida de Peetjie. Conseguiu concluir o ensino secundário numa escola oficial. Escreveu um livro. Faz diversas actividades. Toca clarinete numa banda. Conduz um carro motorizado. Disse: “Sou uma pessoa feliz. Tenho os meus pais que sempre lutaram por mim, tenho o meu trabalho como auxiliar numa escola. Tenho a minha casa, onde vivo sozinha com o meu cão. Tenho uma amiga.” E isto, para ela, era a felicidade. Não me parece que esta felicidade, que alguns designariam de “simples”, se deva a um défice intelectual. Esta felicidade deve-se ao facto de Peetjie saber que atingiu o máximo das suas potencialidades e de isso a deixar satisfeita consigo mesma.

6 comentários:

  1. Tocante. Nos últimos anos li, ouvi e pensei bastante sobre este assunto. Não tenho competências nesta matéria, mas hoje penso que sim, a felicidade depende muito, se não completamente, da nossa auto-satisfação, da forma como entendemos e lidamos com o nosso ego.

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  2. Eu também não tenho competências nenhumas na matéria, os psicólogos e demais especialistas são os meus colegas. Quer dizer... acho que todos temos algum conhecimento prático no que toca à felicidade! ;)

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  3. Penso que o que essa pessoa com síndroma de Down quis dizer é que a felicidade consiste no aceitar o que se é e o que se pode ser. Nesta perspetiva, tem mais que ver com autoconhecimento do que com autossatisfação.

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  4. Acho que a auto-satisfação está sempre dependente do auto-conhecimento. Se não soubermos quem somos, nem o que queremos da vida, dificilmente nos sentiremos satisfeitos...

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  5. Existe recentemente uma corrente na psicologia chamada "psicologia positiva" (ver, p. ex.: http://pt.wikipedia.org/wiki/Psicologia_positiva) que defende isso mesmo: que uma atitude positiva sobre a vida conduz a uma vida mais feliz e menos sujeita ao stress ou problemas psíquicos.
    No ISCSP foi recentemente criada uma "Plataforma para a Felicidade Pública" que ainda não percebi bem o que pretende ser (http://www.iscsp.utl.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1788:apresentacao-da-plataforma-para-a-felicidade-publica&catid=158:eventos&Itemid=401).
    Mas tudo isto se relaciona com o "Índice de Felicidade Interna Bruta", criado no Butão, em alternativa ao PIB (ver aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Felicidade_Interna_Bruta e ali: http://www.felicidadeinternabruta.org.br/sobre.html ).
    Num outro contexto, o meu amigo Juan Luis Walker, anda a fazer, no Chile, uma série de reuniões em Espaço Aberto com o tema "Sonhar o Chile" que ele divulga no FB e que vale a pena acompanhar: ver aqui: https://www.facebook.com/juanluiswalker?fref=ts e aqui https://www.facebook.com/centrointeligenciacolectiva?fref=ts. Isso também se relaciona com a felicidade como se reconhece aqui: http://www.relacionessaludables.cl/ps-juan-luis-walker/.

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  6. Li um artigo muito interessante sobre a psicologia positiva, mas já não sei onde o desencantei. A net é como as cerejas... :)

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