sexta-feira, 8 de maio de 2015

O regresso do cabeleireiro-vidente

(cuja sinceridade infelizmente permanece inalterada)



 
Lembram-se do cabeleireiro-vidente que, juntamente com o corte de cabelo, me ofereceu conselhos avisados sobre os mais variadíssimos temas? Depois de sair de lá com pele de galinha, prometi a mim mesma arranjar outro cabeleireiro o mais depressa possível. Só que o tempo vai passando, passando… na verdade, esta questão não é exactamente prioritária na minha vida. Pronto, admito que desde Setembro do ano passado que não corto o cabelo. Mas esta manhã olhei-me ao espelho e decidi que não dava mesmo para adiar mais.

Mal deixei o Vasco na escola, fui tentar marcar uma hora no cabeleireiro in da terra. Só tinham vaga daqui a duas semanas. Meti-me no carro e parei numa espécie de centro de estética-solário-cabeleireiro-coiso todo fashion perto de casa. Só tinham vaga na próxima semana. Como tinha de ir encher o depósito ao Luxemburgo, decidi tentar o cabeleireiro do centro comercial que está sempre vazio. Tinham vaga, sim, senhora. Mas o corte custava a módica quantia de 65 euros… sem brushing. Desisti. Fui pôr gasolina, aproveitei para comprar uma broa de milho e voltei ao ponto de partida. A meio da manhã, entrei a medo no salão do cabeleireiro-vidente.

 

Eu: Bom-dia. Seria possível cortar o cabelo hoje?
Anjo da Guarda: Tenho uma hora livre agora, se quiser aproveitar…
Eu: Quero, quero! Muito obrigada!
Vidente: Já correu os outros cabeleireiros todos da zona e não arranjou vaga, foi?
Eu: Não, que ideia…
Cabeleireiro: Como é que quer cortar?
Eu: Queria cortar só as pontas.
Cabeleiro: Sente-se aqui… Hum… O seu cabelo parece outro!
Eu: Como?!
Fiel depositário de memórias: Achava que eu não me ia lembrar? Nunca me esqueço de uns cabelos! Deve pensar que há por aqui muitas portuguesas com um sério problema de queda de cabelo...
Eu: Estou a ver que tem boa memória…
Fiel depositário de memórias: O seu cabelo estava uma desgraça, quando cá veio na primeira vez. Agora, está óptimo! Claro que já o podia ter cortado…
Eu: Tem razão, mas custa-me cortá-lo…
Consultor de imagem: Já lhe devo ter dito que o cabelo comprido não lhe fica bem. É muito pequena e tem uma cara redonda.
Eu: Disse, disse…
Dermatologista: E que tratamento é que fez?
Eu: Tudo o que havia no mercado… ampolas, comprimidos, champôs.
Psicólogo: Sim, isso ajuda. Mas se uma pessoa não estiver bem psicologicamente, não há medicamento que valha.
Eu: Acho que tem razão.
Psicólogo: Tudo passa, nesta vida.
Eu: Também me disse isso, sim…
Psicólogo: É o que eu digo sempre.
Eu: Ah…
Psicólogo: Mas acho que se vingou na comida, sabe? Toda a gente precisa de um escape para ultrapassar situações de stress, que normalmente estão associadas à queda de cabelo traumática.
Eu: Está a chamar-me gorda?!
Nutricionista: Gorda, não. Mas está a precisar de fazer dieta.
Eu: Desculpe lá… o senhor diz isso a todas as suas clientes?!
Nutricionista: Não! Há clientes que nem vale a pena! Mas há outras que, se não for eu, ninguém lhes diz que estão a precisar de emagrecer.
Eu: Porquê?
Nutricionista: Por acaso, o seu marido já lhe disse que precisava de fazer dieta?
Eu: Não, não me disse.
Sexólogo: Está a ver? Os homens nunca dizem nada por causa do sexo.
Eu: Como?!
Sexólogo: Se um homem disser a uma mulher que ela está gorda, arrisca-se a ficar sem sexo, porque a mulher vai ficar complexada. Entre ter uma mulher mais gordinha e sexo ou o contrário… está a perceber?
Eu: Estou a perceber, estou…
Nutricionista: Tenho a certeza de que engordou um bocadinho nos últimos tempos, para ultrapassar um momento difícil. É natural, não se ofenda. Mais vale ser honesto consigo. Agora, com desporto e uma dieta, volta num instante ao normal. Até porque não está gorda…
Eu: Ah, pronto… obrigada!
Consultor de imagem: E o cabelo está lindo, super saudável. Vamos só cortar um bocado. Mas temos de tratar do resto, sim? Vamos pô-la toda bonita!
Eu: Qual resto?!
Cabeleireiro: O que acha de pintar e fazer umas madeixas?
Eu: Isso deve demorar horas! E deve custar uma fortuna!
Contabilista: Você não liga muito a essas coisas de mulheres, pois não? Não me parece que gaste muito dinheiro consigo…
Eu: Olhe lá… você é um bocado como o Mentalista, não é?
Vidente: Não, que disparate! Mas vejo que não tem o cabelo bem cuidado, as unhas arranjadas…
Eu: Tem razão, pronto! Não ligo nada a isso. Custa-me gastar dinheiro com futilidades.
Vendedor da banha da cobra: Não são futilidades se a fizerem sentir-se mais bonita. Vai dar-lhe outro ânimo para iniciar essa dieta…
Eu: Está bem, mas não exagere. Quero uma coisa discreta.
Consultor de imagem: Não se preocupe! Vou tratar desse cabelo, vai ficar mesmo gira! Mas tem de parar de fazer disparates com a cor, sabe? Isso dá cabo do cabelo! Também já lhe devo ter dito isto…
Eu: Já disse, já…
Contabilista: E não se preocupe com o dinheiro, faço-lhe um desconto do dia da mãe.
Eu: O dia da mãe é no próximo Domingo…
Vidente: Eu sei. Mas as mães como a senhora gostam de passar esse dia com os filhos, não no cabeleireiro…
 
Saí de lá hora e meia depois, sem me ter desgraçado tanto quanto pensava. Dei carta-branca ao cabeleireiro-vidente e, estranhamente, reencontrei os cabelos dos Verões da minha infância. Compridos e mais claros, com madeixas louras do sol.

Como é óbvio, fiquei a pensar no que ele me disse. Custou ouvir, mas o cabeleireiro-vidente tem razão. Vinguei-me um bocadinho na cozinha, nestes últimos meses. A cozinhar e a comer, a bem dizer da verdade. Estou a precisar de fazer dieta. E desporto. Com a frequência com que vou ao cabeleireiro, devo ter uns oito ou nove meses pela frente para emagrecer! A ver se é desta…

terça-feira, 5 de maio de 2015

O homem da casa

(porque este fim-de-semana tive um momento de vergonha alheia

e fiquei a matutar nisto)


 

Se há praga que eu abomino é a noção machista de “homem da casa”, que infelizmente parece universal e intemporal. Não me estou a referir à figura masculina adulta, propriamente dita. No nosso caso, o meu amor… por oposição a mim, que sou a “mulher da casa”. Esta designação advém meramente do facto de sermos de sexos diferentes e de dormirmos debaixo do mesmo tecto, sem qualquer conotação social implícita. É um simples genitivo. Também não me estou a referir à população masculina que compõe uma família. Até porque eu digo muitas vezes “os homens da casa” ou “os meus homens”… mas, neste caso, é a denominação genérica dos habitantes de sexo masculino que comigo vivem.

Estou a falar da promoção quase imediata a “homem da casa” que os rapazes sofrem quando uma mulher fica sozinha. Noutros tempos, isto acontecia invariavelmente na sequência de uma viuvez. Hoje em dia, ocorre tipicamente na sequência de um divórcio. Independentemente da idade, a sociedade impõe de forma sistemática ao filho mais velho um novo papel de defesa da mãe e dos irmãos. De repente, a criança é investida de uma missão protectora. De rapazinho passa a guardião do clã. Pior, de filho passa a “chefe de família”. Dizem-lhe: “Tens de ser um menino crescido, tens de tomar conta dos manos”, “Agora és o homem da casa, tens de ajudar a mãe”. E de uma assentada só, rouba-se uma infância e subverte-se a relação mãe/filho.

Quando são pequenos, a coisa ainda escapa. É engraçado ver um rapazinho a proteger a mãe. É sinal de maturidade, de sensatez, de meiguice. Facilmente se perdoa um comentário mais autoritário, apenas porque tem piada. Porque parece um homenzinho. O problema é quando crescem, quando irrompem adolescência adentro numa posição de força completamente pervertida. Nessa altura, a mãe já não consegue ter a necessária e natural autoridade. Compreendo que seja prático ter um “homem” para mudar as lâmpadas, reparar a torneira que pinga, tirar as compras do carro, pendurar quadros na parede… Já para não falar que é reconfortante ter um ombro amigo com quem desabafar, mais que não seja da conta do telefone que deu cabo do orçamento do mês. Ou do último desgosto amoroso, em que o filho é chamado a dar opiniões sobre o que não lhe diz respeito. Mas este comportamento precocemente adulto e de pendor machista tende a descambar, mais tarde ou mais cedo. Um dia, o rapaz que a sociedade incentivou a tornar-se homenzinho cresce. E decide naturalmente assumir a posição de macho-alfa que dita as regras do clã. O filho deixou de ser apenas filho. O homem em construção transformou-se num macho. E, aqui, já não há volta a dar.

Tenho visto à minha volta os efeitos devastadores desta aberração arcaica. A minha amiga Christine queixa-se muitas vezes que o filho mais velho é adorado na vizinhança, mas que ninguém imagina como é tirano dentro de portas. É o reverso da medalha, invisível aos olhos do mundo que só tem elogios para o “homem da casa”. O miúdo de 17 anos é o “homem da casa” desde pequeno. Muito maduro para a idade, é bastante apegado à família. Extrovertido, tem conversa com toda a gente. É um trabalhador incansável, sempre pronto a ajudar a vizinhança. Ainda por cima, é mesmo prestável, vê-se que gosta de ajudar as pessoas a troco de um simples sorriso. Repara na perfeição qualquer objecto destrambelhado: bicicletas, motores de tractores, um armário partido. Tem umas mãos de ouro, sabe fazer tudo. Quando nos mudámos para Vielsalm, foi uma ajuda preciosa nas mudanças. Trabalhou no duro o dia inteiro e nem sequer aceitou que lhe pagasse. A custo, lá o convenci a deixar-me encher-lhe o depósito da mota.

Isto é o lado bom. O lado público, digamos assim, que é alvo de tantos elogios. Mas, depois, há aquele outro lado de machista emergente. Malcriado e displicente. Que dá ordens à mãe. Que é prepotente com a irmã mais nova. Que se pavoneia pela casa como se fosse o rei, a quem tudo é permitido. As saídas à noite, as bebedeiras esporádicas, as anedotas obscenas. Que tem sempre uma palavra de gozo, de desprezo. Humilhante. Que por vezes chega a roçar o agressivo. Mas, lá está, é o “homem da casa”. Ninguém duvida que adore a família, que protege de tudo e todos… excepto de ele mesmo. E de quem é a culpa? Dos vizinhos que elogiam a maturidade do “homem”? Da mãe que se ri para disfarçar o mal-estar, quando ele lhe diz que “pode meter a garrafa de cerveja onde muito bem lhe apetecer”? Da irmã que vai a correr buscar o telemóvel que ficou esquecido no quarto? De mim que prefiro virar costas e ir-me embora a pô-lo no lugar?

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Com ela aprendi o amor

(porque foi com ela que tudo começou)


 

Com ela aprendi o amor. Não me lembro do ventre que me acolheu, dos braços que me embalaram, da voz primeira que me guiou. Sei que não fui uma criança fácil. Muito menos, uma adolescente. A ânsia de independência e liberdade nunca me abandonou. Mas o amor com que cresci ainda hoje me acompanha. Aquele amor que é feito de demonstrações de afecto. O amor lambuzado. Apertado. Declarado. O colo onde há sempre espaço. O amor feito de beijinhos guardados num lugar especial no pescoço que só ela conhece.

Com ela aprendi a ver com a alma. A ler mundo com os olhos do coração. A almejar o que está para além do óbvio. A procurar a beleza das coisas. Aquilo que não se sabe explicar, mas que se sente.

Com ela aprendi a ser exagerada. Emotiva. A equilibrar estados de espírito. A rir quando a situação puxa o riso e a chorar quando a situação exige lágrimas. Passo facilmente da lágrima ao riso. E vice-versa. Aprendi a não me levar muito a sério.

Com ela aprendi a contar histórias. A construir o fio narrativo. O enredo. Aprendi a valorizar a poesia das palavras. A trabalhá-las, a poli-las. Aprendi o exemplo dos clássicos. As lendas. A mitologia. Cresci rodeada de personagens, os melhores companheiros da infância. E entrei na juventude com o Pessoa e o Eugénio de Andrade.

Com ela aprendi a arte. A arte em todas as suas formas. A arte no museu das janelas verdes. A arte nas noites quentes de jazz na Gulbenkian. Na Companhia Nacional de Bailado. E na Comuna. No silêncio das igrejas. A arte que ela descobria nos postais que volta e meia me oferecia, com reproduções de autores desconhecidos. (E a eterna dedicatória no verso com aquela sua letra deitada.) Com ela aprendi também a procurar a arte nas mais pequeninas coisas. Na vida. Na Feira da Ladra. Na velhota que passa. Na música que se ouve através da janela entreaberta. No menino que ri. No gato que espreita. A arte fugaz do nosso quotidiano.

Com ela aprendi a meter conversa com toda a gente. A fazer amigos. A ser extrovertida. A saber estar. Aprendi a usar vestidos e tranças com laços. A ter uma palavra de atenção para com as pessoas invisíveis que estão à nossa volta. Aprendi a bondade. A boa-educação. Aprendi o mais básico. Também aprendi a desenrascar-me. Aprendi que cozinhar é muito diferente de fazer comida.

Com ela aprendi a ser filha única no meio de três irmãos. A ser especial. A sentir que tinham orgulho em mim. Aprendi que podemos discutir com uma mãe, o amor nunca sai beliscado. Podemos até passar muito tempo sem lhe falar, há palavras que não precisam de ser ditas para serem adivinhadas. Aprendi que as mães são mágicas. São espelhos. Reflectem o que de melhor e pior temos. A nossa dor, os nossos desejos, as nossas lutas, as nossas conquistas. Aprendi que uma mãe põe o coração ao alto, engole conselhos e maus augúrios, para deixar os filhos aprenderem por si próprios.

Com ela aprendi que uma mulher tem de lutar por certas causas. Não pode dar nada por adquirido. Uma Barbie não é apenas uma boneca, é um estereótipo que se deve combater. Não se pode abdicar de nada, demorou-se muito a chegar aqui. A vida exige-nos um certo estoicismo. Temperado na medida certa com inteligência e doçura. Podemos tropeçar, mas caímos sempre como os gatos. Há que cultivar a capacidade de nos reinventarmos, sem nunca deixarmos de nos maravilhar.

Com ela aprendi a ser filha e a ser mãe também. A projectar-me no futuro através deles. E a rever-me no nosso passado. Aprendi a ser família. A aceitar defeitos e qualidades que herdei e que transmito, independentemente da minha vontade. Aprendi a fazer parte de um todo que me ultrapassa.
 
 


E o nosso poema de sempre…

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"