quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A novela mexicana

(onde nos apaixonamos perdidamente por um bebé gorila

e passamos a seguir ansiosamente 33 outros gorilas)


Este Natal, ofereci ao Vasco o apadrinhamento vitalício de um bebé gorila da Dian Fossey Gorilla Fund International, a associação fundada por Dian Fossey para proteger os gorilas da montanha. A bem dizer da verdade, Kundurwanda já não é bem um bebé, pois fez três anos em Outubro, uma idade importante para os gorilas. As mães só engravidam a cada três ou quatro anos, quando as crias deixam de mamar e se tornam mais independentes. Kundurwanda está, então, prestes a entrar na idade da parvoeira, tal como a nossa coisa pequena.

Juntamente com o certificado de apadrinhamento e uma fotografia, o Vasco recebeu também o historial de Kundurwanda, que significa "Love Rwanda". O pequeno gorila da montanha vive no Parque Nacional dos Vulcões, no Ruanda, vigiado 24h/dia durante todo o ano. É o segundo filho de Ishema que, em 2006, integrou o grupo Pablo, tido como um dos maiores. Neste momento, o grupo conta com 33 gorilas. O líder é o famoso Cantsbee, um dos mais velhos gorilas “costas prateadas”. Foi a própria Dian Fossey que o baptizou, quando percebeu que o gorila que andava a observar era, na realidade, uma fêmea ao vê-la dar à luz… “It can’t be!”, terá ela exclamado. Cantsbee tem protagonizado algumas histórias engraçadas ao longo dos anos. Não só tem contribuído imenso para a proliferação da espécie, como toma conta dos membros mais novos do grupo com um cuidado inusitado. Consta que uma vez surpreendeu um dos guardas por estar especialmente maldisposto e violento para com os pequenos gorilas. Quando finalmente conseguiu afugentá-los a todos, levantou-se e afastou-se do local. Nessa altura, o guarda percebeu que ele tinha estado o tempo todo sentado ao lado de uma armadilha, para proteger as crias do grupo.

Quando o Vasco apadrinhou o Kundurwanda, o grupo estava a passar por uma fase bastante complicada. Cantsbee tinha desaparecido misteriosamente, uma manhã. Várias equipas tentaram seguir-lhe o rasto, nos dias seguintes, sem sucesso. Cantsbee parecia ter-se, pura e simplesmente, evaporado. Dada a sua vetusta idade, a organização pensou que teria ficado para trás, numa das últimas movimentações do grupo, acabando por morrer. Os dias seguintes foram atribulados, pois o grupo acusou o choque do desaparecimento do seu líder. Alguns jovens gorilas acabaram por se afastar, criando diversos sub-grupos. Gicurasi, filho de Cantsbee e presumível pai de Kundurwanda, parecia ter assumido a liderança do grupo de forma pacífica. O grupo manteve os seus cinco “costas prateadas”, diversos machos e fêmeas de diferentes idades, seis jovens e sete bebés. Consta que Kundurwanda é um dos mais activos, sendo muitas vezes visto em grandes momentos de brincadeira e cumplicidade com o irmão adolescente, Imfura.

Cá em casa, apaixonámo-nos de imediato por Kundurwanda. E passámos a seguir atentamente à distância a vida dos gorilas do grupo de Pablo. Também nos interessámos por aprender mais sobre esta espécie em vias de extinção. Ficámos a saber que partilham entre 98 e 99% do nosso ADN, sendo os nossos parentes mais próximos. Para além disso, todos os gorilhas partilham o nosso grupo sanguíneo B e têm uma impressão digital única. A esperança média de vida oscila entre 30 e os 50 anos, atingindo a maturidade sexual relativamente tarde, por volta dos 12 anos. O tempo de gestação é de 8 meses e meio. São animais herbívoros extremamente inteligentes, capazes de aprender linguagem gestual e de usar ferramentas na natureza, inclusivamente como armas.

Na semana passada, a Dian Fossey Gorilla Fund International enviou ao Vasco o relatório trimestral sobre o afilhado. Kundurwanda está bem e recomenda-se. Já começou a tornar-se mais independente, passa muito tempo com os membros mais jovens e parece estar pronto a abandonar a amamentação. Na fotografia que enviaram, podemos ver um garboso gorila, que encheu de orgulho o padrinho. “Está mesmo crescido!”, comentou o Vasco, embevecido. Ficou especialmente satisfeito por ler que Kundurwanda tem tudo para vir a tornar-se um futuro líder. Aliás, a grande novidade sobre os gorilas do grupo de Pablo diz respeito precisamente à liderança: Cantsbee regressou misteriosamente em Janeiro! Vindo sabe-se lá de onde, o velho gorila retomou as suas normais actividades no seio do grupo, como se nada fosse. Felizmente, Gicurasi parece aceitar bem a situação e mostrou-se disposto a partilhar a recém-conquistada liderança do grupo, que entretanto se voltou a unificar. Nós cá vamos seguindo as aventuras de Kundurwanda, por quem já nutrimos um carinho especial. Pela primeira vez na vida, dei por mim a desejar fervorosamente ganhar o Euromilhões, para podermos fazermos uma expedição com a Dian Fossey Gorilla Fund International para ver os gorilas da montanha. Até lá, vamos consultando a página oficial e aguardando ansiosamente as notícias que nos chegam trimestralmente. O Diogo diz que isto se tornou a nossa novela mexicana e eu não podia estar mais de acordo. Tentámos explicar ao Belga o fascínio que os portugueses sentem pelas telenovelas, mas acho que não fomos bem-sucedidos. Mas foi ele que se lembrou de alugar o velhinho “Gorilas na Bruma” para vermos em família. Prevejo um mar de lágrimas…

Kundurwanda

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Coisas sérias

(porque os filhos não vêm com mapa 

e não temos ninguém para nos indicar o caminho)



Coisa pequena tem namorada. Mais velha. Toda despachada e pespineta. É irmã de um grande amigo. Já cá dormiu em casa. Ele já lá dormiu em casa. Entretanto, deu-se o namoro. Nós achámos piada, mas não ligámos muito. A questão que se coloca, nos últimos meses, é saber como gerir o namoro do mais velho.

Filho crescido tem namorada. Da mesma idade. Muito calma e doce. É colega de escola. Já tinham feito programas em bando, acompanhados pelos pais dela. Já tinham passado tardes cá em casa, a fazer trabalhos de grupo. Entretanto, deu-se o namoro. Nós não achámos lá muita piada, porque ele não foi totalmente honesto connosco, logo no início. Mas também não ligámos muito. Até que a coisa começou a ficar mais séria.

Devido à minha própria história, confesso que tenho horror de namoros adolescentes “sérios”. Se dependesse de mim, só tinham namoricos e flirts nos tempos mais próximos. Vá… nos anos vindouros. Mas já percebi que, no caso do Diogo, não será bem assim.

No nosso aniversário, fomos jantar fora os quatro para celebrar. Afinal de contas, como bem lembrou o meu amor, também fazia quatro anos que nos conhecíamos todos. Era uma festa partilhada. Os miúdos estavam especialmente bem-dispostos. Fizeram muitos brindes. Fartaram-se de rir. Eu tinha levado um jogo para nos entretermos enquanto esperávamos. Os telemóveis e consolas não são autorizados nas saídas em família. Como nunca foram, eles também nunca fizeram caso disso. Preferimos jogos de sociedade. Este agradou especialmente ao Diogo, que se revelou bastante mais falador do que o habitual. Quer dizer, filho grande fala pelos cotovelos e atropela sempre quem tenta interrompê-lo, mas não é muito dado a confidências do foro íntimo. Mas o objectivo deste jogo era precisamente aprender a conhecer os membros da família, através de uma série de perguntas engraçadas. Tipo… “Qual a maior gaffe que já cometeste?”, “Qual o objecto mais importante para ti?”, “Qual o teu maior desgosto?”, etc. O Diogo respondeu com uma honestidade desarmante. E eu sei ler nas entrelinhas. Portanto, os meus alarmes maternos soaram, estridentes.

O problema de vivermos numa zona rural é que a rede de transportes públicos é praticamente nula. Ou seja, Romeu e Julieta estão dependentes das boleias dos pais para se encontrarem. O que deixa porta aberta a interpretações dúbias. Porque envolver os pais no namoro não implica necessariamente que estes aprovem uma relação mais “séria”. Mas eu sinto que, quando vou levar o Diogo a casa da namorada e os pais dela o vêm trazer depois, subentende-se uma certa aprovação da nossa parte. O mesmo se passa quando ela vem a nossa casa. E não quero que o Diogo (ou a namorada ou os pais da namorada…) pense que eu incentivo isso. Aos 15 anos, o namoro pode perfeitamente circunscrever-se à esfera escolar, não? Por outro lado, consigo compreender que o Diogo queira aproveitar os fins-de-semana para estar com a namorada, visto nunca estar cá nas férias escolares. Mas é difícil gerir esta situação, sem me mostrar claramente contra (que não sou), nem completamente a favor (que estou longe de estar).

O meu amor e eu estamos fartos de conversar sobre este assunto, sem chegar a nenhuma conclusão satisfatória. Ele acha que eu devia ir falar com os pais da namorada para estabelecermos um “plano de acção conjunto”, por assim dizer. Eu penso que isso só iria contribuir para oficializar a relação, dando-lhe um ar “sério”. Por isso, limito-me a convidar os adultos a entrar, porque, enfim… sejamos honestos… é um bocado chato manter as pessoas à espera na rua, quando estão temperaturas negativas. Pela parte que me toca, nunca saio do carro. Limito-me a enviar SMS a dizer que cheguei, para evitar conversas de circunstância.

Por outro lado, impus limites que me pareceram sensatos. Não me importo que a namorada venha até cá, quando saem da escola, e que regresse mais tarde. Até posso, inclusivamente, ir levá-la a casa. Quando estão no quarto, a porta tem de ficar sempre aberta. Mas nunca vamos lá controlá-los, apesar de estarem dois andares acima de nós. Nos fins-de-semana em que o Diogo trabalha, não há namoro possível. O Sábado é para trabalhar, o Domingo é dia de estudo e para estarmos em família. Em exclusivo. E tento explicar-lhe que há uma diferença entre darmo-nos bem com a família da namorada e estarmos ao serviço desta. Porque não é suposto controlar o que a namorada come na escola, nem convencê-la a recomeçar a tocar um instrumento ou a arranjar um trabalho de estudante. Aos 15 anos, não pode haver responsabilidade acrescida de espécie alguma. Aos pais cabe a tarefa de educar, à escola de instruir, aos amigos de divertir e ao namorado de namorar. Apenas e só.

Não sei se estarei a agir bem, não tenho grandes referências sobre o assunto. Excepto a minha própria experiência, que foi catastrófica. Tento falar muito com o Diogo sobre isso. Sem impor nada, só mostrar onde eu errei. Onde a minha família errou. Porque é muito fácil “adoptar” alguém como filho, neto, irmão, sobrinho, etc., quando tem apenas 15 anos. E, quando damos por isso, estamos a viver uma “relação de família” antes de estarmos preparados. Uma relação que se torna cada vez mais difícil de terminar, porque entretanto ganhou outras ramificações. Uma relação que é mais fraterna do que outra coisa, só que nunca tivemos oportunidade de viver algo mais. Uma relação sem bases, sem estrutura, sem coluna vertebral, por falta de maturidade. E o que nasce torto, nunca se endireita… mas pode arrastar tanta coisa má atrás. Sei bem daquilo que falo, infelizmente. A namorada do Diogo parece-me uma menina muito querida, mas há uma vida que ainda tem de ser vivida livremente, sem as amarras de uma relação. Acredito que há idades para tudo. Há viagens, Eramus, cursos, trabalhos. Há saídas que têm tudo para correr mal, bebedeiras, drogas ligeirinhas, viagens sem dinheiro, namoros vários, noites em claro a estudar para exames por procrastinações juvenis. Opções de vida que merecem liberdade total de escolha. E é apenas isto que eu gostaria de conseguir garantir a ambos.

Tive o Diogo quando ainda andava a passear pelos corredores da faculdade de letras. A vida dos meus amigos estava a anos-luz da minha. A internet dava os primeiros passos. Li alguns livros, claro. Até mesmo porque, para chegar ao leitor infantil, grande parte da minha tese de mestrado se centrava na psicologia infantil. Mas educar o Diogo foi sempre uma aventura bastante solitária e sem rede. Felizmente, nos primeiros anos, eu ainda tinha aquela certeza (casmurrice?!) típica da juventude. Quando agora vejo esses grupos de mães no Facebook penso que deve ser um alívio imenso confrontarmo-nos com outras vivências. Apesar de não me rever nesta nova geração de mães que parece ter dado dois passos atrás em termos de liberdade feminina, gostaria muito de ouvir outras opiniões avisadas sobre temas que me preocupam. Porque muito mais importante do que discutir fraldas reutilizáveis ou a melhor idade para introduzir o peixe, é discutir assuntos que podem de facto influenciar a vida os filhos para todo o sempre. Espero que esses grupos de ajuda se mantenham até os bebés da lua cheia da segunda semana de março de 2015 se emanciparem. Porque acredito que é necessário para os pais falar da problemática da adolescência de forma responsável, sem invadir obviamente a intimidade dos envolvidos. Podemos expor-nos sem os expor a eles. No fundo, o que interessa aqui é termos acesso a outras pistas de leitura de comportamentos que me parecem transversais. Eu sei que gostaria muito de ouvir outras opiniões sobre este assunto.


[ Entretanto, filho pequeno perguntou se podia convidar a namorada para dormir – porque já cá dormiu antes… – no próximo fim-de-semana, para celebrar o dia dos namorados longe do olhar indiscreto dos colegas. E ainda tenho de ir comprar prenda. Nem fui capaz de lhe responder. Engasguei-me. ]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Quatro anos de nós

(onde cada dia que passa é melhor do que o anterior)



Ele diz que continua apaixonado por mim, como no primeiro dia. Que aquela história de a paixão durar apenas dois anos é mentira. No nosso caso, ele diz que é mentira. (Eu concordo.)

Dá-me sempre a mão, por mais pequeno que seja o percurso. Andamos sempre de mão dada. Às vezes, dá-me um beijinho na mão e guarda-a no bolso. Desata-se a rir e diz: “É tão pequenina!”.

Ele fica à espera que D. Fuas dê o sinal, quando chego a casa à tardinha. Mal saio do carro, deparo-me com ele a entrar na garagem. Para me receber. Com um sorriso do tamanho do mundo. É quando o meu dia começa verdadeiramente.

Pede-me para ir passear com ele. É dos poucos momentos em que exige exclusividade.

Ele não se cansa de elogiar os meus filhos. As pessoas que eles são. (Porque ele vê-os como pessoas.) Conhece-lhes os gostos, os hábitos, os segredos, as manias, os amores, as fraquezas, as histórias, os sonhos. As disciplinas preferidas e as odiadas. Sabe qual foi a nota que tiveram no último teste. E a data do próximo. Sabe a matéria que estão a dar. Os horários de todas as actividades. Não sei porquê, gosta de ser ele a levá-los ao médico. E, depois, repete cuidadosamente tudo o que ouviu. Sabe que tem de dar a mão ao Vasco no dentista. E que o Diogo não pode ver agulhas. Sabe o número que vestem. E que tipo de calçado preferem. Conhece os autores e séries que estão em alta no momento. E os que já passaram à história. Sabe quais os pratos de eleição e os mais detestados. Todos os domingos lhes traz um mimo diferente da pastelaria e lhes prepara o pequeno-almoço. Corta a maçã aos bocadinhos, porque sabe que é a única maneira de o Diogo a comer. Adora viajar com eles e está sempre magicar novos destinos a quatro. Bem mais do que só a dois.

Quando estou cansada, ele vai para a cozinha. Numa hora, prepara três pratos diferentes. É uma festa. A sua especialidade são as tagines.

Lembra-se perfeitamente do primeiro dia em que me viu maquilhada. Sabe o que levava vestido. E que tinha esticado o cabelo. Eu também nunca mais me esqueci, porque ele ficou a olhar para mim com uns olhos muito arregalados de espanto.

Ele dá-me muitas prendas, nunca deixa passar uma data em branco. No outro dia, deixou cair lixívia em cima de uma camisola que me tinha oferecido e eu fartei-me de chorar. Porque cada prenda tem o seu significado. E eu adoro-as a todas, sem excepção. Desta vez, recebi um livro de Paul Valery e outro da Sylvia Plath. Não sei como é que ele faz para me ler os pensamentos.

Sempre que estou atrasada para ir trabalhar, ele senta-se ao meu lado nas escadas para me calçar uma das botas. Invariavelmente, aperta os atacadores ao contrário.

Sabe exactamente qual a temperatura ideal da água do duche e deixa-a regulada. Se levar os dentes antes mim, deixa sempre a caixinha aberta. Se for depois, tem o cuidado de a fechar.

Às vezes apanho-o a olhar para mim e fico envergonhada. Mas é ele que cora por ter sido apanhado em flagrante.

Ele diz que adora ouvir-me falar. Que gosta da minha visão das coisas. Que aprendeu muito comigo. Ele diz que tenho uma sabedoria prática. Mas ele é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Uma espécie de enciclopédia, com infinitas entradas sobre os mais variados temas.

Quando dorme fora, liga-me sempre antes de se deitar. Nunca ao acordar. E quando neva muito, liga-me 15 minutos depois da hora normal de chegar ao trabalho. Às vezes, liga-me só para me ouvir. E diz: “Liguei só para te ouvir”.

Um dia, surpreendeu-me no trabalho com uma planta. “Chegou a primavera!”, disse-me.

Ele diz que nunca se cansa de mim. Gosta de me cheirar o pescoço. E o cabelo. De fazer amor em sítios estranhos. Numa igreja. Na praia. Numa gruta, no meio dos bosques.

Quando encomenda comida, nunca me pergunta o que quero. Mas acerta sempre. Sabe quantos cereais tem o meu pão preferido. Sabe o tipo de alface que mais gosto. E a bebida também. Conhece a marca do meu queijo predilecto. Põe sempre a quantidade certa de mel e pinhões no meu iogurte.

Ele tem uma fotografia do nosso café em Spa, onde nos encontrámos tantas e tantas vezes, naquele primeiro inverno dantesco.

Vai sempre deitar-se uns minutos antes de mim para me aquecer o lugar. Aninha-me na curva do ombro dele. Numa covinha que tem exactamente o tamanho ideal. E ficamos a falar no escuro. Depois, viramo-nos em conchinha. A última coisa que ouço, antes de adormecer, é “Amo-te”.

Às vezes, estamos a trabalhar lado a lado e ele manda-me um e-mail, só para meter conversa. Numa qualquer língua estranha. Ele domina quase uma dezena de línguas. Eu preciso do Google para as decifrar.

Ele odeia visceralmente quem me faz mal. Esforça-se por ser o meu escudo e amparar todos os golpes. Ele diz: “Se soubesses como eu te compreendo…”. E eu sei que é verdade.

Nas últimas semanas, tem percorrido todos os supermercados por onde passa à procura das últimas caixas de marrons glacés desta estação. Ele sabe que é a minha perdição. Quando encontra alguma, deixa-a em cima da minha secretária, sem dizer nada. No outro dia, fez um coração com os marrons. Mas continua a dizer que não é romântico.

Adora ver fotografias minhas de quando eu era criança. E anda sempre atrás de mim, de máquina em riste, para me apanhar os risos palermas. Tenho imensas fotografias a rir, que ele guarda religiosamente. E fotografias de nós os três juntos. Da tribo.

Quando nos sentamos finalmente para ver a nossa série, antes de nos irmos deitar, finge ralhar com o D. Fuas, que se instala sem vergonha no meio de nós. Diz que o cão não pode subir para os sofás. Mas eu sei que ele adora esta mania do nosso cão mimado.

Chama-me petit cœur. Às vezes, pulguinha. Renarde. Ou Raposinha.

Guarda numa pen todos os e-mails que trocámos. Desde o primeiro. E numa caixa, guarda todos os bilhetinhos idiotas que já lhe escrevi.

Ele escondeu um tesouro para mim, nos bosques de Malempré. Debaixo de uma árvore que tem um prego. E escreveu-me um conto com as coordenadas exactas. Mas eu sou tão parva que não as consigo descobrir. E o tesouro permanece escondido.

A primeira vez que ele me viu, através da janela, eu estava a dançar com um Vasco ainda pequenino ao colo. D. Fuas andava aos saltos à nossa volta. Ele diz que nunca mais se esqueceu desta imagem.