(onde quase nos vemos na pele de um empresário muito bimbo)
Mal
chegámos da nossa aventura em Marrocos, o Belga pôs-se a magicar as férias
seguintes. Conhecendo a minha paixão pelos países escandinavos, ficou logo
definido que, no Verão seguinte, rumaríamos algures a Norte. Admito que fiquei
um bocadinho apreensiva. Estava perfeitamente convencida de que o custo de vida
seria inacessível às nossas parcas economias. E foi assim que, em Agosto de
2015, comprei o meu primeiro mealheiro. Nunca me lembro de juntar dinheiro com
tanto afinco, em 40 anos de existência. Na Bélgica, o sistema obriga-nos sempre
a avançar uma bela maquia para tudo e mais alguma coisa. Achei que era uma boa
ideia todos os estornos que recebesse irem directamente para o mealheiro. Nem
sempre consegui, sou sincera. Houve meses mais complicados, em que não consegui
juntar nada. Mas, feitas as contas por alto, estava satisfeita com o meu método
de poupança.
Contudo,
em meados de Abril, cheguei mais cedo do que o previsto ao trabalho e dei com
uma das assistentes a chorar. Talvez por também ter criado os filhos
completamente sozinha, temos bastantes afinidades. Lembro-me de uma vez ter
comentado com ela que estava aflita com a roupa da cama que não secava, porque não
parava de chover. No dia seguinte, em cima da minha secretária, tinha dois
conjuntos de lençóis e capas de édredon para os rapazes. Tinha começado a
trabalhar ali há pouco tempo e aquele gesto comoveu-me. Quando a filha acabou o
secundário, deu-me a calculadora científica para o Diogo. E, às vezes, traz-me
produtos da horta. Por isso, quando me explicou que não tinha como pagar os
dois últimos meses do Kot da miúda
(lá está, porque não havia meio de pagarem a bolsa de estudos e ela andava há
meses a avançar o dinheiro do alojamento universitário…), decidi dar-lhe o meu
mealheiro. Como tive receio de que recusasse, entreguei-lhe a lata ainda
fechada, para ela ver que era um extra para as férias, que não iria fazer-me
falta no dia-a-dia. Uma vez aberto, o mealheiro tinha pouco mais de 600 euros.
O Kot custava 300 por mês, foi um alívio. A minha colega aceitou o empréstimo,
mas decidiu que não ia esperar pela bolsa para começar a pagar a dívida. Volta
e meia, dava-me os 30 ou 40 euros que tinha recebido no fim-de-semana a
trabalhar como babysitter. Infelizmente,
como faço sempre as compras da semana durante a hora do almoço, às
segundas-feiras, as minhas economias foram aos poucos sendo trocadas por peixe,
iogurtes e afins. Nunca mais consegui repetir o feito. Quando fomos finalmente de
férias, o único que ainda tinha o mealheiro intacto era o Vasco. Gastou tudo em
Legos, claro. Mas estou desconfiada de que, no caso dele, também deve ser
considerado um produto de primeira necessidade.
Mal
chegámos da Dinamarca, o Belga pôs-se novamente a magicar as férias seguintes.
Desta vez, insisti que também tinha de ser um destino desconhecido para ele… o
que reduzia consideravelmente a nossa margem de manobra. O meu amor já visitou
os cinco continentes e muitos – muitíssimos! – países. Como é evidente, a nossa
escolha é bastante ambiciosa e ainda estamos longe de saber se será possível
concretizá-la. Mas lá me dispus a comprar um novo mealheiro para recomeçar a
juntar dinheiro. Como felizmente não houve quaisquer problemas de saúde nos
últimos tempos, tive de arranjar um novo método de poupança. O seguro de saúde
intervém automaticamente no preço final das consultas das crianças e jovens,
pelo que há muito menos estornos a receber este ano. Depois de pensar um
bocado, optei por economizar menos de cada vez, mas com maior frequência. Deste
modo, lembrei-me de começar a juntar todas as moedas de dois euros que me
viessem parar às mãos. O que me obrigou a alguma ginástica para conseguir chegar
a casa sem as gastar entretanto… o que fez com que andasse sempre a trocar
dinheiro… recebendo, assim, mais moedinhas de dois euros! Bem sei que parece um método parvo, mas acreditem que acaba por ser engraçado.
Há
dois meses, soubemos que o Vasco precisaria de um tratamento bastante caro de
endodontia (e escusado será dizer que o outro
lado não se mostrou disponível para comparticipar com a metade que lhe era
devida). Não entrei em pânico, porque me lembrei do meu novo mealheiro. Mas,
depois de contar dezenas de moedas de dois euros, cheguei à conclusão de que o
método “menos dinheiro, mais vezes” ficou bastante aquém das expectativas. Vá…
não é brilhante. Pronto, é uma merda. A verdade é que a matemática nunca foi o
meu forte. Como ainda tínhamos algum tempo antes da consulta, accionei o plano
de emergência. Cortei tudo o que era supérfluo. Quando digo “tudo”, foi mesmo
tudo. E, quando digo “supérfluo”, talvez esteja a exagerar… algumas coisas não eram
assim tão supérfluas. Que se dane, cortei na mesma. Ficámos com o mínimo
indispensável. Nada de restaurantes, saídas, passeios, cinemas, roupas… Nada de
nada. O dinheiro poupado ia todo para o mealheiro. Mas, depois, o Vasco deu
cabo dos sapatos. Duas vezes. Mais umas botas da neve. O Diogo também deu cabo
dos sapatos. Resmunguei e fui aos saldos. A seguir, foi o mazout. Esteve tanto frio em Janeiro, que o mazout congelava na cisterna, obrigando-nos a manter o aquecimento
ligado dia e noite. Fomos obrigados a encomendar mais 500 litros. Por
fim, veio a conta da viagem escolar do Diogo. Não, não se trata de uma visita
de estudo. É mesmo uma viagem escolar… a Oxford (e escusado será dizer que o outro lado não se mostrou disponível
para comparticipar com a metade que lhe era devida). Voltei a resmungar.
Arrependi-me por não o ter deixado vender as garrafas de vinho para diminuir o
custo da viagem. Se, no início do ano lectivo, tivesse sabido que a situação
iria ser tão crítica, teria mandado às urtigas os meus princípios. No final de
Fevereiro, já não me parecia assim tão mal vender álcool antes de se ter idade
legal para beber…
Com
tantas entradas e saídas consecutivas, o meu pobre mealheiro ficou
completamente esquizofrénico. E eu perdi-me nas contas. No dia da consulta no
endodontista, o meu amor contou o dinheiro às escondidas e pôs o que faltava. O
dente do Vasco não teve salvação. A mandíbula de baixo mantém o desvio, e o
ortodontista preferiu usurpar o espaço para fazer avançar os restantes dentes.
A parte boa é que não foi preciso pagar o tratamento a peso de ouro. A parte má
é que vamos voltar à saga dos aparelhos dentários em breve. A parte mais ou
menos é que já temos algum dinheiro de lado. Assim não me apareçam
mais sapatos destruídos por magia. Ou mais despesas escolares absurdas. Ou… OK,
prefiro não pensar.
[
Quando saímos do endodontista, suspirámos de alívio por termos escapado à
vergonha de tirar um envelope da mochila cheio de notas. Na ânsia de fazer
economias com métodos arcaicos, nem nos lembrámos de fazer um depósito no
banco. A avaliar pelo espanto com que o médico nos aceitou o pagamento da
consulta e das radiografias em dinheiro, não quero imaginar a cara que teria
feito se tivéssemos de pagar a totalidade do malfadado tratamento… ]
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