(onde
se dão algumas dicas muitíssimo discretas)
Querida
mãezinha, agora que tens uma filha emigrante, vê lá se não te esqueces do
essencial. E o essencial não é vires para aí carregada de malas a abarrotar de
roupa quente, que isso ocupa imenso espaço. Os belgas não mudam de roupa todos
os dias e não cheiram mal. Pelo menos, o que eu tenho lá por casa não tem um
odor desagradável. Duas mudas de roupa chegam perfeitamente para uma semana. A
que trazes vestida e uma de reserva. Na pior das hipóteses, podes trazer
muitaaaa roupa vestida no próprio dia para teres mais escolha e libertares
espaço nas bagagens (sendo que esta última questão é um mero detalhe sem
importância, claro). E esquece lá o casaco de pêlo, que a malta aqui
desenrasca-te um kispo porreiro. Chapéus de chuva também cá temos muitos,
embora na Bélgica ninguém os use.
O
essencial também não é vires com a mala atafulhada de livros ou com os
suplementos todos do Público do fim-de-semana que ainda não tiveste tempo para
ler. De qualquer modo, a nossa casa de banho não tem fechadura. E quem se senta
refastelado no sofá, arrisca-se a apanhar com o D. Fuas em cima. Embora tenha
de admitir que ele aquece uma pessoa, a verdade é que anda com umas pulgas
manhosas. A mana é capaz de não achar muita piada se eu te mandar de volta
pejada de pulgas. Isto é só um conselho, obviamente farás o que achares melhor.
Quanto
ao nécessaire de viagem, não sei se sabes, é coisa que passou de moda com o 11
de Setembro. Portanto, não precisas de viajar com os produtos todos de higiene
atrás. Primeiro, porque ocupam imenso espaço (não sei se já percebeste que esta
é uma questão que me preocupa) e, segundo, porque temos aqui tudo o que
precisas. Acho que as tartarugas não se vão importar de te ceder por uns dias a
escova de dentes com que lhes coçamos a carapaça. E eu até agradeço que
termines a embalagem de gel de banho 3 em 1 "Axe Odor a Trolha" que o
teu neto mais velho adorava antes de entrar na fase porca da sua existência.
Mas,
afinal, o que é essencial trazeres na bagagem? É coisa pouca, não te preocupes.
Nada de especial. Eu passo a explicar...
Farinheira
(em quantidade e qualidade, que somos grandes apreciadores)
Leite
condensado cozido da Nestlé
Bolachas
Torradas (pode ser de marca branca)
Cérelac
de frutas para fazer com água (embalagem azul)
Chocolate
culinário Pantagruel (em pó e em barra)
Farinheira
(em quantidade e qualidade, que somos grandes apreciadores)
Chouriço
(nada de “chouriço corrente”, que isso encontro eu no Luxemburgo)
Pastéis
de nata tostadinhos (preferencialmente do próprio dia)
Massa
de pimentão (frasco grande)
Travesseios
de Sintra (caso fique fora de mão, num cafézinho do Colombo há uns bastante
aceitáveis)
Farinheira
(em quantidade e qualidade, que somos grandes apreciadores)
Pastilhas
Gorila sem açucar (para os netos basta isso, que eles não são esquisitos)
Chapéuzinho
de chocolate da Regina (a dar-me discretamente em segredo porque faz mal aos
dentes dos meninos e do Pascal também)
Nestum
Mel
Bolachas
Maria (sim, sim... aqui também se arranja, mas a 2€ o pacote)
Farinheira
(em quantidade e qualidade, que somos grandes apreciadores)
Pão
com chouriço (fresco, hein?)
Pudins
Mandarim ou Royal de laranja (ou os dois)
Postas
de bacalhau salgado (se embrulhares em jornal, não empesta a mala)
Colorau
em pó
Tremoços
Farinheira
(em quantidade e qualidade, que somos grandes apreciadores)
E,
pronto, acho que é tudo. Pelo sim, pelo não, mantenham os telemóveis ligados
até embarcares no avião, porque posso lembrar-me de mais alguma coisa
entretanto. Não te preocupes com o vinho do Porto para o belga, que eu compro
aqui uma garrafa e dizemos que vem daí. Se a mana tiver comprado o último livro
da Isabel Allende e já tiver acabado, traz. Se não tiver acabado, traz na mesma
que eu não digo que foste tu. Se o Sérgio Godinho ou o Jorge Palma tiverem
lançado mais algum álbum, traz porque eu tenho a certeza de que vais gostar de
ouvir enquanto aqui estiveres. Por amor de Deus, não tragas mais nenhuma
colectânea da Mariza para ver se não avivamos a paixão do Vasco. Ah... já que
estamos a falar de música, faças o que fizeres, não peças ao Diogo para te
mostrar o que anda a ouvir. A sério, mãe, não peças. Há coisas sobre o teu neto
mais velho que é melhor não saberes.
Não
te preocupes, vai correr tudo bem. O aeroporto do Luxemburgo é muito pequenino,
não há qualquer hipótese de não te ver. Excepto se te esqueceres da lista supra
citada. Nesse caso, posso correr o risco de não dar por ti mesmo que esbracejes
como uma doida à minha frente. Como já não nos vemos há vários meses, é melhor
combinarmos uma palavra-passe. É que pode dar-se o caso de tu ires atrás de
outra filha e de eu trazer para casa outra mãe. E de só darmos por isso dias
depois, o que era uma maçada. Portanto, o código é: “trouxe tudo o que pediste,
filhinha querida do meu coração”. Não te esqueças, hein?
Nunca mais compro uma farinheira sem me lembrar de ti.
ResponderEliminarBoa estadia :)
Bolacha maria a 2€???!!! Bolas...
ResponderEliminarJá podias ter dito que gostavas de farinheira, a malta fazia uma vaquinha e mandava-te pelos CTT express ;)
Bom, vamos lá ver se nos entendemos... Já repararam bem no tamanho de uma farinheira?! Já viram quanto é que dá dividida por quatro?! É coisa para dar azo a discussões enormes à mesa!
ResponderEliminarAcho que só a Paula_2700 milhas é que me entende, que isto é conversa típica de emigrante! Quanto ao azeite, uma antiga vizinha de Malempré tem acesso a uns carregamentos ocasionais de Marrocos de um produto muito aceitável... :)
Caraças, que até eu estou tentada a pedir a tua morada para te enviar uma carrada de farinheiras!
ResponderEliminarGabzia, as farinheiras nunca são de mais! :)
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